O número 12 é um plágio bíblico? - Parte 3

1/11/2016 03:23:00 PM Gabriell Stevenson 0 Comments



6. O número 12 na cultura egípcia

É frequente a comparação entre o que está escrito na Bíblia sobre a cultura judaico-cristã e outras culturas e religiões. Uma delas, e talvez a principal, é a comparação com o Egito Antigo.

O número doze era, de fato, muito utilizado pelos egípcios para dividir o tempo. Por exemplo, os egípcios usavam o número doze em sua agricultura para fixar o tempo de plantio e colheita:

“A cada ciclo de tempo, a partir de meados de julho, uma enchente acontecia. Durante umas doze luas, de julho a setembro (ver Fig.34), ficava tudo inundado. Dava tempo para que os nutrientes orgânicos, que vinham junto com as águas, se fixassem no solo. Depois disso o rio voltava ao seu leito normal e não chovia mais.” [1, p. 27]

Após o Nilo voltar ao seu tamanho normal, e a terra ficar fertilizada e adubada pelos nutrientes orgânicos, os egípcios aproveitavam para começar seu plantio e depois colheita. Mas observe que isso se deve ao fato de uma observação da natureza e não ao número 12 ser “tão especial” para os egípcios que os levou a escolher o tempo de 12 luas para praticarem sua agricultura.

Os anos egípcios também eram baseados no número 12; eles tinham 12 meses ao todo, com 30 dias cada um, mais 5 dias especiais acrescidos para homenagear os deuses Hórus, Seth, Ísis e Osíris. Mas tal divisão também não era baseado meramente em sua religião, mas na observação das fases da lua e também no ciclo de cheias do rio Nilo[2].

Se o povo hebreu aprendeu dos egípcios como dividir o ano, contar as estações e até mesmo construir um mapa celeste, isso não constitui plágio, mas troca cultural e científica; nada mais natural de se acontecer devido ao espaço de tempo em que ficaram cativos no Egito; os hebreus inclusive sepultavam seus mortos enrolando-os em muitas faixas devido à influência egípcia.

7. Os deuses egípcios

Indo mais adiante, há quem diga que Hórus também é retratado como tendo 12 discípulos, assim como Osíris, seu pai, e também o deus Rá. E geralmente usam pinturas nas paredes para mostrarem isso, como essa abaixo:

[3, Plate 8.12]

Mas, como pode ser lido na legenda da imagem, “...são mostrados adorando... doze deuses, incluindo Osíris e Hórus...”[3, plate 8.12]. Ou seja, não são Hórus e 12 discípulos, nem Osíris e 12 discípulos, mas 12 deuses egípcios, incluindo os próprios Hórus e Osíris; e nada indica que os outros 10 eram discípulos.

Até mesmo o cortejo real dos faraós, que eram associados à Hórus[1, p.68], era formado por 4 porta-estandartes chamados de “seguidores de Hórus”[1, p. 64], ou seja, se Hórus teve seguidores, eles eram 4 e não 12.

Por vezes, as doze horas da noite e as constelações do zodíaco também são chamadas de deuses “ajudantes” de Osiris, de Hórus, e até de Rá:

Os doze companheiros [de Osíris] deviam ser os doze signos do zodíaco...”[4, p. 175]

“Os doze deuses podem ser rapidamente identificados com Mazzaroth, ou os doze signos do Zodíaco, através do qual o sol passava todo ano.” [4, 99]

Composições mortuárias pintadas nas paredes... descrevem a viagem de Rá através das 12 horas da noite, e seu renascimento no seu final.”[3, p.245]

Alguns veem isso como sendo 12 discípulos, na mesma esfera de compreensão que se dá para os discípulos de Jesus; até mesmo alguns egiptólogos entendem assim. Mas tudo não passa de interpretação pessoal, pois também existem egiptólogos e historiadores que não concordam com essas comparações.

Perceba que os autores mostram as doze constelações e as doze horas da noite como sendo deuses ajudantes de outros deuses diferentes e maiores. Ou seja, tais deuses não seriam necessariamente discípulos, mas sim encarregados de ajudar os demais nas mais variadas tarefas, como “ajudar o sol a nascer”.

Comentando o texto achado na tumba de Seti/Sety/Sethos I sec. 13 AEC em Thebes, Budge comenta:

“à direita do barco de AFU-RA, e de frente pra ele, está HÓRUS, e os doze deuses das horas, que protegiam a tumba de Osíris e ajudam RA em sua jornada...”[6, p. 153].

Em outras palavras, o que se vê é que as constelações é que guiam Hórus e não Hórus quem guia, instruí, ou ensina às constelações. E mesmo que compreendamos tais deuses como sendo discípulos (o que não são) somaria a eles o número dos 4 porta-estandartes, totalizando 16; logo, Hórus não teria 4, nem 12 discípulos, mas 16.

Budge, em seu livro The Gods of the Egyptians, também possui um capítulo (cap. 19) cujos subtítulos incluem: “Gods of the hours of the day” [5, p. 294], “Gods of the hours of the night” [5, p. 294], “Gods and goddesses of the twelve hours of the night” [5, p.300] e “Gods and goddesses of the twelve hours of the day” [5, p.302]. Se são doze horas da noite e doze horas do dia, somariam 24 “discípulos”(?!). Com mais os 4 porta-estandartes, seriam 28(?!).

Vê-se que toda essa interpretação feita pelos “conspiracionistas” não passa de mera especulação mal fundamentada.

Mais a frente, vamos ver algumas outras comparações feitas entre o “mito do plágio do número 12”.

Continua... aqui!


REFERÊNCIAS:
[1] DOBERSTEIN, Arnoldo W. O Egito Antigo. <http://goo.gl/zQTxxY>
[2] Wikipédia. Calendário Egípcio. <https://goo.gl/wzgHkz>
[3] BARD, Kathryn A. An Introduction To The Archeology Of Ancient Egypt. <http://goo.gl/Zio8ve>
[4] BONWIK, James. Egyptian Belief and Modern Thought. <https://goo.gl/7UK629>
[5] BUDGE, E. A. Wallis, The Gods of the Egyptians. <http://goo.gl/sxRTeo>
[6] BUDGE, E. A. The Egyptian Heaven and Hell, Three Volumes Bound as One. <https://goo.gl/u3x6Jf>